HAICAIS E O ZEN
==================================================== APRESENTAÇÃO
Este livro nasce de um reconhecimento, não de uma invenção. Os haicais reunidos aqui já existiam antes de qualquer intenção de aproximá-los do zen, escritos ao longo de anos, sobre instantes de vida, natureza, tempo e silêncio. Ao reler esse conjunto com outros olhos, tornou-se claro que muitos desses versos já carregavam, sem que isso fosse buscado de propósito, a mesma sensibilidade que atravessa a tradição zen há mais de oitocentos anos: a atenção ao instante presente, a aceitação do que passa, a desconfiança em relação a explicações fechadas.
Por isso este não é um livro que tenta provar que seus haicais são zen. É um livro que os deixa em companhia dessa tradição, para ver o que se ilumina no encontro. Alguns versos vão revelar conexões que nem o próprio autor havia percebido antes de perguntarem a ele. Outros, percebidos de perto, mostrarão pertencer a um território diferente, mais próximo do afeto entre duas pessoas do que da meditação sobre a existência, e esses foram deixados de fora, com o mesmo respeito que se dá a qualquer poema que já sabe, sozinho, a que lugar pertence.
O leitor está prestes a atravessar oito portas. Nenhuma delas precisa ser aberta na ordem em que aparece.
==================================================== PREFÁCIO O silêncio entre os versos
O haicai não nasceu como técnica. Nasceu como prática. Antes de Bashō escrever os versos que hoje conhecemos como sua obra maior, ele já se sentava, já caminhava, já observava o mundo com o mesmo tipo de atenção que os monges zen chamam de presença plena. A forma breve do haicai, dezessete sílabas, um corte, um instante, não é um estilo escolhido por economia. É o resultado natural de uma mente que aprendeu a não acrescentar mais do que o necessário.
Por isso este livro não precisa construir uma ponte entre dois mundos distantes, como aconteceu em outros volumes desta coleção. A ponte já existe. Estava lá antes de qualquer comentário, antes de qualquer livro. O que se pretende aqui é simplesmente deixar essa proximidade mais visível, sem transformá-la em explicação.
O zen desconfia de explicações. Um mestre que respondesse toda pergunta com clareza total teria, de algum modo, traído o próprio caminho. Por isso alguns haicais, neste livro, não recebem comentário nenhum. Não é descuido. É reconhecimento de que certos versos já dizem tudo o que precisam dizer, e qualquer palavra a mais seria ruído.
Ao longo das páginas, uma presença discreta atravessa o livro: um buscador, quase sempre visto de longe, que se aproxima aos poucos de um mosteiro nas montanhas. Ele não fala. Não explica o que sente. Apenas aparece, uma vez em cada capítulo, um pouco mais perto do silêncio que buscava desde o início. Talvez, ao final, o leitor perceba que essa jornada não é dele, é de qualquer um que já tenha sentido, por um instante, vontade de parar de explicar o mundo e simplesmente olhar para ele.
==================================================== COMO LER ESTE LIVRO
Não há pressa aqui. Cada haicai pode ser lido em poucos segundos, mas nada impede que o leitor permaneça diante dele por mais tempo do que isso, deixando que o silêncio ao redor do poema também fale.
Os comentários que acompanham a maioria dos versos não pretendem explicar o haicai. Pretendem apenas acompanhá-lo por um instante, oferecendo uma porta de entrada possível, entre tantas outras que o próprio leitor poderá encontrar sozinho. Quando um haicai aparece sem comentário, isso não é ausência. É convite.
O livro está organizado em oito portas, não oito capítulos no sentido comum. Uma porta se atravessa, não se estuda. Cada uma delas recebe um punhado de haicais e, por vezes, uma referência a Dōgen, a Bashō, a Ryōkan ou a algum kōan clássico, sempre como companhia, nunca como veredito.
==================================================== PORTA 1 — MU O vazio que não é nada, mas é tudo
Mu é uma das palavras mais citadas e menos compreendidas do zen. Não significa simplesmente "nada", no sentido de ausência ou negação. No célebre kōan em que um monge pergunta ao mestre Jōshū se um cachorro possui natureza búdica, a resposta é apenas "Mu". Não é sim, não é não. É uma palavra que se recusa a entrar na lógica binária da pergunta, e que por isso mesmo abre um espaço onde nenhuma resposta fechada poderia caber.
Os haicais desta porta não tentam definir esse vazio. Apenas se aproximam dele, cada um à sua maneira, como quem se aproxima de uma sala escura sem pressa de acender a luz.
Ele chega ao portão. Ainda não entra.
Uma pedra lançada / Em ondas no lago / No silêncio afundava
A pedra desaparece, mas antes disso produz ondas, e as ondas também desaparecem. O que resta, ao final, não é o objeto nem o movimento que ele causou. É o silêncio que já estava lá antes da pedra cair, e que continua lá depois.
Dōgen escreveu que praticar o caminho é esquecer o eu, e esquecer o eu é ser confirmado por todas as coisas. A pedra que afunda não luta contra a água. Apenas se deixa atravessar por ela até desaparecer.
É e não é / A água transborda / No espelho do lago
O poema já nomeia, no primeiro verso, exatamente o que o mu recusa: a certeza de que algo é isto ou é aquilo. A água transborda e ao mesmo tempo reflete, existe como substância e como imagem, e o poema não escolhe entre as duas coisas.
Não é preciso resolver esse paradoxo para que o haicai funcione. No zen, alguns kōans permanecem décadas sem resposta na vida de quem os pratica, e isso não é fracasso, é o próprio exercício.
Busque dentro / A todo momento / O firmamento
Buscar o firmamento dentro de si pode soar, à primeira vista, como um exagero poético. Mas é justamente esse tipo de inversão que o zen cultiva: o que parecia estar lá fora, imenso e inatingível, pode ser encontrado, com igual imensidão, no espaço mais próximo que existe.
Escuta o teu silêncio / Descansa na sombra / Viaje no seu espelho
Um haicai que se lê quase como instrução de prática. Escutar o próprio silêncio, descansar na sombra em vez de temê-la, viajar através do próprio reflexo em vez de se prender a ele. Não há necessidade de comentário adicional aqui. O poema já ensina o que se propõe a ensinar.
Saiba ver / Sombras e luz / Em você
(sem comentário)
Sinto sem o ver / Revela o invisível / O elemento ser
Há um tipo de conhecimento que não passa pelos olhos. O poema não tenta provar sua existência, apenas a registra. Ryōkan, que viveu boa parte da vida em extrema simplicidade, escreveu que sua única herança era um coração aberto. O "elemento ser" deste haicai talvez seja precisamente isso: aquilo que continua existindo mesmo quando não há nada visível para comprová-lo.
==================================================== PORTA 2 — IMPERMANÊNCIA (MUJŌ) Tudo passa, e é isso que dá valor
Mujō é talvez o conceito zen mais próximo da experiência cotidiana de qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo. As flores de cerejeira, tão celebradas no Japão, não são admiradas apesar de caírem depois de poucos dias. São admiradas exatamente por isso. A beleza que dura é uma beleza qualquer. A beleza que passa, e que sabemos que vai passar enquanto a observamos, carrega um peso que nenhuma permanência poderia oferecer.
Esta porta reúne os haicais mais voltados ao tempo: a infância que já não volta, a promessa esquecida, a sensação de que um instante durou mais do que deveria. Nenhum deles tenta deter o tempo. Todos, de um jeito ou de outro, aprendem a se despedir dele.
Ele atravessa o portão. O jardim está vazio, mas ele para diante de uma única folha caindo.
Do tempo de criança / Guardo na lembrança / O rio de água mansa
Uma memória de infância, suave como o próprio rio que a representa. Não há conflito nesse poema, apenas permanência dentro da impermanência: algo que ficou guardado mesmo sabendo que o rio, lá fora, já não é mais o mesmo rio de então. Heráclito dizia que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio; o zen apenas acrescenta que também quem se banha já não é o mesmo.
O sino tocou / Tempo de criança / De si lembrou
Um som é suficiente para atravessar os anos e trazer de volta uma versão mais jovem de quem o escuta. Nos mosteiros zen, o sino marca as horas de prática, mas também, sem intenção alguma, pode se tornar a porta de uma lembrança inteira. O sino não muda. Quem o escuta, sim.
O que ficou pra trás / Vai vendo e vivendo / O tempo não desfaz
Ao contrário da ideia comum de que o tempo apaga, o poema afirma o oposto: o que ficou para trás continua sendo visto e vivido. A impermanência, no zen, não significa que nada teve valor. Significa que o valor de algo não depende de sua permanência.
Quando passou / Tive a sensação / Que o tempo parou
Existem instantes tão intensos que parecem suspender o próprio relógio. O poema não explica esse instante, apenas registra a sensação. Talvez seja essa uma das poucas exceções em que o tempo, mesmo impermanente, se deixa esquecer por um segundo inteiro.
Já é setembro / E as juras que fiz / Já nem lembro
O poema revela a fragilidade não só da memória, mas da própria vontade humana. Prometemos, em determinado momento, aquilo que depois não conseguimos sustentar. Não há culpa nesse esquecimento, apenas mais uma prova de que tudo, inclusive a promessa mais sincera, está sujeito à mesma lei que rege as folhas e os rios.
Se era novembro? / De muitos sonhos / Uns nem lembro
A pergunta inicial já mostra que a memória não é um arquivo perfeito. Datas se confundem, sonhos desaparecem, algumas experiências permanecem apenas como sensação. Talvez esquecer também seja parte do caminho, e não sua falha.
Solidão e sal / O rastro no tempo / O sol é real
Três substantivos secos, sem verbo que os amarre: solidão, rastro, sol. O poema não constrói uma cena, apenas deposita três presenças lado a lado e deixa que o leitor sinta o peso de cada uma sem que nenhuma explique a outra.
Ver o tempo / Enquanto no tempo / Ainda há tempo
O poema brinca com a repetição da palavra "tempo" para produzir uma sensação de urgência silenciosa, sem drama. Enquanto se está dentro dele, ainda existe a possibilidade de simplesmente vê-lo passar, em vez de apenas ser levado por ele.
Corre devagar / Quando no tempo / Está a esperar
A espera altera a percepção do tempo. Quando se aguarda algo, os minutos parecem maiores. O poema transforma essa sensação comum em um pequeno paradoxo que qualquer praticante de zazen reconhece: sentar-se imóvel é, ao mesmo tempo, a coisa mais rápida e mais lenta que existe.
==================================================== PORTA 3 — AQUI E AGORA O instante sem antes nem depois
Se a impermanência ensina que tudo passa, esta porta ensina o que fazer com isso: permanecer no instante que ainda não passou. É a lição mais repetida do zen e, ao mesmo tempo, a mais difícil de sustentar por mais de alguns segundos seguidos. A mente humana prefere o passado, que já conhece, ou o futuro, que pode imaginar do jeito que quiser. O presente não oferece esse conforto. Só oferece o que realmente está acontecendo.
Ele senta no primeiro degrau da escadaria de pedra. Não sobe. Ainda não é hora.
Chegou na hora / É diferente aqui / O tempo lá fora
O poema separa dois tempos: o de dentro e o de fora. Não é apenas uma observação sobre fusos ou relógios, é a constatação de que existe uma qualidade de tempo que só se experimenta quando se está inteiramente presente em algum lugar, diferente do tempo apressado que continua correndo do lado de fora da porta.
Logo amanhece / Mas o momento / Ainda adormece
Um instante suspenso entre o que já começou e o que ainda não despertou de vez. O poema não força a passagem. Deixa o momento continuar meio adormecido, sem pressa de virar outra coisa.
Agora é a hora / De manhã vem o sol / E a lua demora
Duas presenças que não competem, apenas se revezam em seu próprio tempo. O sol chega, a lua demora a sair, e o poema não cobra pressa de nenhuma das duas. "Agora é a hora" não é urgência. É apenas reconhecimento de que este é o momento que existe.
Haicai é momento / Um estalo de luz / No pensamento
Este haicai fala de si mesmo, e por isso funciona quase como uma definição para toda a porta. O "estalo" sugere uma compreensão que acontece rapidamente, antes que possa ser explicada. É exatamente esse tipo de instante que zazen, a meditação sentada, tenta cultivar: não produzir o estalo, apenas estar suficientemente quieto para percebê-lo quando ele chegar.
==================================================== PORTA 4 — A NATUREZA COMO MESTRA Wabi-sabi, a beleza do incompleto
Wabi-sabi é a estética que encontra beleza no imperfeito, no efêmero e no incompleto. Uma tigela rachada e remendada com ouro, em vez de descartada. Um jardim de musgo que nunca é podado até a simetria perfeita. A natureza, para o zen, não é cenário: é professora, e ensina justamente aquilo que a perfeição não consegue ensinar, porque a perfeição não precisa de ninguém para observá-la.
Os haicais desta porta olham para o mar, o rio, o céu, sem tentar torná-los símbolos de outra coisa. Eles já são, por si mesmos, o próprio ensinamento.
Ele encontra um jardim de pedras, sem uma única flor. Fica ali mais tempo do que pretendia.
Canoa chora / Na lama que rola / No rio afora
A canoa presa na lama, incapaz de seguir seu curso natural, ganha uma emoção humana: chora. É uma pequena cena, mas carrega uma pergunta simples: o que fazemos quando algo em nós, como a canoa, fica preso onde deveria fluir?
No oceano mar / Meu corpo navega / O barco carrega
O corpo aparece como algo que navega, carregado por algo maior que ele. Há aqui uma sugestão de que não se navega sozinho: algo conduz através do oceano da existência, e talvez o único trabalho seja deixar-se carregar sem resistência excessiva.
O sol e o céu azul / No mar a imensidão / No eu, a solidão
O poema segue uma progressão de escalas: do sol ao céu, do céu ao mar, do mar ao eu. Quanto maior a paisagem contemplada, mais nítida fica a solidão de quem observa. No zen, essa pequenez diante do imenso não é motivo de angústia. É lembrete de proporção.
Muda o cenário / Do alto campanário / Canta o canário
Um pequeno instante quase cômico em sua simplicidade. O cenário muda, e em meio à mudança, o canário simplesmente canta, sem se importar com o que está mudando ao redor. Há uma lição inteira de despreocupação nesses três versos curtos.
Água das sereias / Que antes navegava / Longe das areias
Um verso que flerta com o mito sem se prender a ele. A água que já esteve longe agora se aproxima da areia, e o poema não explica por quê. Deixa a imagem simplesmente acontecer, como a maré.
Assim foi feita / Sem uma receita / A flor perfeita
A ausência de receita não é falha, é justamente o que permite que cada flor, cada existência, seja única. Esse haicai é, talvez, a formulação mais direta de wabi-sabi em todo o livro: a perfeição que não seguiu fórmula nenhuma para chegar a ser exatamente o que é.
==================================================== PORTA 5 — NÃO-DUALIDADE Quando o eu e o outro deixam de se separar
O zen se formou na China, como Chan, bebendo diretamente do pensamento taoísta antes de atravessar para o Japão. Por isso não é estranho que o símbolo do Yin-Yang apareça nesta porta: os dois opostos do círculo não existem em conflito, nem somados um ao outro, mas em movimento eterno, cada um contendo já uma semente do outro. Essa é a mesma lógica que sustenta a não-dualidade zen, expressa mais tarde em outra língua, outra forma, mas a mesma percepção de fundo: as fronteiras que separam eu e outro, dentro e fora, eu e mundo, são menos sólidas do que parecem.
Ele encontra outro caminhante no meio da trilha. Nenhum dos dois fala. Seguem juntos por um trecho, depois se separam sem se despedir.
Um do outro / Eterno movimento / O complemento
Este haicai nasceu da imagem do Yin-Yang, e é uma das formulações mais precisas de não-dualidade que este livro reúne. Os dois lados do círculo não competem, não se anulam, não se resolvem em um terceiro elemento. Permanecem em movimento eterno, um definindo o outro pela própria diferença. A não-dualidade zen não apaga as diferenças; apenas revela que elas nunca estiveram, de fato, separadas.
Metade sou eu / O outro quero ser / Um só em mim
Há uma tensão interessante aqui: alguém que se percebe dividido entre quem é e quem deseja ser, sonhando em reunir as duas metades numa só pessoa. No zen, essa integração não significa eliminar uma das metades. Significa parar de tratá-las como inimigas.
Pelo que somos / Pesamos e medimos / O que vemos
O poema sugere que a percepção nunca é neutra: aquilo que somos molda o que conseguimos enxergar. Essa observação, silenciosa e quase técnica, é uma das portas de entrada mais diretas para a não-dualidade entre observador e observado, um dos temas centrais tanto do zen quanto de parte da física contemporânea.
Da razão à emoção / A descoberta de si / Conduz ao coração
O poema traça um trajeto que não separa razão de emoção como territórios opostos, mas como uma única estrada que atravessa os dois. A descoberta de si não escolhe entre pensar e sentir. Passa pelos dois até chegar a um lugar que já não é nenhum dos dois isoladamente.
Dois elementos / O pleno encontro / Em aquecimento
Uma fogueira nasce do encontro de dois elementos que, sozinhos, não seriam fogo, o atrito, o oxigênio, a madeira que cede. O haicai nasceu de uma imagem concreta e literal, mas guarda, sem forçar nada, o mesmo princípio do símbolo do Yin-Yang no poema anterior: dois não precisam deixar de ser dois para se tornarem, juntos, uma terceira coisa que nenhum dos dois seria sozinho. O calor não pertence a nenhum dos dois elementos isoladamente. Pertence ao encontro.
==================================================== PORTA 6 — O CAMINHO SEM CHEGADA (DŌ) A prática que nunca termina
Dō, o caractere que aparece em judô, aikidô, sadō (a cerimônia do chá), significa literalmente caminho. Não é uma trilha que termina num destino específico, mas uma prática contínua, na qual a chegada nunca é o ponto: o próprio caminhar já é o que se busca. Um mestre de tiro com arco não pratica para acertar o alvo uma vez. Pratica para que o gesto de atirar se torne, ele mesmo, completo.
Os haicais desta porta falam de estrada, jornada, peregrinação, mas nenhum deles descreve uma linha de chegada.
Ele já caminha há dias. A montanha não parece mais próxima do que estava ontem. Ele continua mesmo assim.
O reto caminho / O velho pergaminho / O leve peregrino
Três imagens de tradição e travessia. A leveza do peregrino é o detalhe mais importante: quem caminha muito aprende a carregar só o essencial, e essa é também uma lição do próprio dō. O progresso pede que se solte aquilo que pesa sem necessidade, para que a travessia continue possível.
Junte coragem / A vida é passagem / Na grande viagem
O poema define a vida como passagem dentro de uma viagem maior. Não é o destino final, é uma etapa. A coragem pedida no primeiro verso não é para enfrentar um fim, mas para atravessar bem essa etapa, sabendo que ela não é a última palavra.
Cada um seguiu / Por um caminho / Cada um sozinho
O zen não nega a companhia, mas reconhece que, no fundo, cada prática é intransferível. Ninguém pode se sentar em zazen por outra pessoa. Ninguém pode atravessar o próprio caminho por procuração.
Vamos todos nós / Na estrada fazendo / E desatando nós
O caminho, aqui, é também o lugar onde os nós, os apegos e as amarras, vão sendo desfeitos aos poucos, sem pressa e sem cerimônia. Fazer e desatar não são movimentos opostos. São o mesmo movimento, visto de dois ângulos.
Luz deve buscar / A vida um é moinho / Sempre a girar
A imagem do moinho, sempre girando, é uma boa metáfora para a prática contínua: não é um esforço que um dia termina, é um movimento que se sustenta girando. Buscar a luz não é chegar a ela de uma vez, é manter o moinho em movimento.
Por onde andei / Pedacinhos deixei / E também levei
A vida como sequência de marcas e aprendizados. Deixamos pedacinhos por onde passamos, e também levamos pedacinhos de cada lugar por onde passamos. O caminho nunca é feito só de partida.
==================================================== PORTA 7 — A MENTE DO PRINCIPIANTE Ver de novo o que já se viu mil vezes
Shunryu Suzuki, um dos mestres zen que mais influenciaram o Ocidente, resumiu talvez o conceito mais citado desta tradição numa única frase: na mente do principiante há muitas possibilidades, mas na mente do especialista há poucas. Quanto mais tempo se passa observando algo, mais fácil é parar de vê-lo de verdade, substituindo a percepção direta por categorias já conhecidas. A mente do principiante é o esforço contínuo de resistir a essa economia da atenção.
Ele já viu esse mesmo bambuzal centenas de vezes, em pinturas, em outros livros. Ainda assim, para diante dele como se fosse a primeira.
Quantas vezes / Realmente se vê / Até o anoitecer
A pergunta do poema não tem resposta fácil. Passamos o dia inteiro com os olhos abertos, mas quantas vezes, de fato, vemos o que está diante de nós? A mente do principiante começa exatamente aqui, nessa dúvida honesta.
Quantas já vi passar / Várias vezes desatento / Coisas de se sonhar
O poema confessa, sem se desculpar, a distração como parte da experiência comum. Não é uma crítica a si mesmo, é apenas o reconhecimento de que a atenção plena não é um estado permanente, é algo que se pratica de novo a cada vez que se percebe que ela havia escapado.
Sonhos ainda tenho / Em barquinhos de papel / Eu e meu gato fiel
Um haicai que preserva, sem nenhuma vergonha, o encantamento infantil por coisas simples: um barquinho de papel, um gato fiel. A mente do principiante não é sofisticada. É, muitas vezes, exatamente isso: a disposição de ainda se maravilhar com o que qualquer criança já sabia se maravilhar.
Assim me fazia / Quando meu mundo / Era só fantasia
Um retorno à infância, quando o mundo ainda não havia sido reduzido a categorias fixas. O poema não pede que se volte a ser criança. Apenas lembra que essa outra forma de ver já existiu, uma vez, dentro de quem lê.
Sabendo olhar / Poesia sempre há / Em todo lugar
Talvez o haicai mais importante desta porta. A poesia não está apenas no poema, está no modo como se olha. A mente do principiante é, no fundo, apenas isso: saber olhar de novo.
==================================================== PORTA 8 — SILÊNCIO O que o haicai não diz
Esta é a porta mais curta do livro, de propósito. Depois de sete portas de reflexão, resta pouco a acrescentar. O silêncio não é a ausência do que foi dito antes. É o que sobra depois que todas as palavras já foram gastas, e ainda assim algo continua ali, sem precisar de mais nenhuma delas.
Ele chega, finalmente, ao mosteiro. Não bate à porta. Senta-se do lado de fora, e o silêncio o recebe antes de qualquer monge.
A paz que quero / Sei onde encontrar / No meu silêncio
Depois de sete portas de busca, este haicai confirma o que talvez já estivesse implícito desde a primeira: a paz nunca esteve em nenhum lugar fora do próprio silêncio de quem procura. O caminho todo, olhando para trás, foi apenas o percurso até essa constatação simples.
Poesia é viver / Deixar a água correr / Dentro do ser
(sem comentário)
==================================================== EPÍLOGO Depois da porta, o mercado
Nas pinturas tradicionais que narram os dez estágios da busca zen, os chamados Dez Touros, a história não termina quando o buscador alcança a iluminação. Termina com ele descendo da montanha, de volta à cidade, de mãos abertas e vazias, entre pessoas comuns que nem sabem que ele esteve fora. O último quadro não mostra um monge sentado em silêncio eterno. Mostra alguém comprando peixe no mercado.
É por isso que o buscador deste livro não fica no mosteiro. Ele senta do lado de fora, o silêncio o recebe antes de qualquer monge, mas a porta, quando finalmente se abre, não é para que ele entre e desapareça. É para que ele volte a sair, agora carregando consigo algo que não estava lá quando ele chegou.
O que ele carrega não é resposta. Um dia acordamos e vemos que estivemos, o tempo todo, buscando dentro de nós o mesmo firmamento que julgávamos distante; que uma pedra, ao afundar, ensina mais sobre desaparecer do que qualquer explicação; que o sino que tocou na infância continua tocando, baixinho, sempre que alguém se lembra de si. Vimos duas coisas se tornarem uma só através do simples encontro, como o fogo, como o Yin-Yang, sem que isso exigisse deixarem de ser duas. Aprendemos, devagar, que uma flor não segue receita, e que talvez ninguém precise seguir.
Caminhamos sem saber ao certo se a montanha se aproximava, e descobrimos que isso nunca foi o ponto. Vimos o mesmo bambuzal de sempre como se fosse a primeira vez, e talvez essa tenha sido a lição mais difícil de todas: não que exista algo novo para ver, mas que os olhos podem, a qualquer momento, escolher ver de novo.
E no fim, depois de sete portas de busca, restou apenas isto: a paz que se procurava nunca esteve destino nenhum. Estava no silêncio de quem procurava.
Por isso este livro não termina com o buscador entrando no mosteiro. Termina com ele saindo outra vez, sem pressa, para o mesmo mundo de antes, carregando a única coisa que qualquer porta pode realmente oferecer: não uma resposta, mas um jeito diferente de olhar para as perguntas que já existiam, o tempo todo, bem diante dele.
A direção visual que vocês já validaram para o livro do Kardec, sumi-e contemporâneo, preto e branco, muito espaço vazio, funciona ainda melhor aqui, porque desta vez não é uma escolha estética aplicada de fora: sumi-e é, ele mesmo, uma prática zen. Pintar um bambu ou uma montanha em sumi-e exige o mesmo tipo de presença e economia que escrever um haicai. Os dois nasceram do mesmo lugar.
Alguns ajustes que eu proporia, específicos para este volume:
Cor. No livro do Kardec, o vermelho era usado como ponto de presença seletivo. Aqui, sugiro ir ainda mais longe: manter o vermelho apenas como um hanko, o selo de carimbo vermelho que os pintores e calígrafos japoneses tradicionalmente aplicam no canto de suas obras. Um único carimbo pequeno, sempre no mesmo lugar de cada página, funciona como assinatura e como o único toque de cor em todo o livro, sem nunca competir com a imagem.
O ensō como elemento estrutural. O ensō é o círculo pintado em um único gesto de pincel, símbolo zen do vazio, da totalidade e da imperfeição aceita, porque o círculo quase nunca fecha perfeitamente. Sugiro usar o ensō como elemento visual recorrente na abertura de cada uma das oito portas, talvez variando sutilmente de forma a cada capítulo, e culminando, na Porta 8, num ensō quase completo, mas ainda assim, propositalmente, não fechado de todo.
A figura do buscador. Como conversamos, ele aparece uma vez por porta, sempre discreto, quase se perdendo na paisagem. Sugiro que o design siga literalmente a sequência das oito frases-instantâneo que já escrevi abrindo cada porta: ele se aproxima do portão (Porta 1), depois de um jardim vazio (Porta 2), senta-se numa escadaria (Porta 3), encontra um jardim de pedras (Porta 4), cruza com outro caminhante (Porta 5), caminha sem ver a montanha se aproximar (Porta 6), contempla um bambuzal (Porta 7), e finalmente chega ao mosteiro, sentando-se do lado de fora antes mesmo de bater à porta (Porta 8). Cada imagem pode ser resolvida com o mínimo de traço possível, uma silhueta, nunca um rosto detalhado, preservando o anonimato que já vínhamos discutindo.
Papel e textura. Manter a textura delicada de papel de arroz que já foi validada, mas aqui eu aumentaria ainda mais a proporção de espaço vazio em cada página, mesmo em relação ao Kardec. Se naquele livro o vazio era estilo, neste ele é conteúdo: cada página branca a mais é, literalmente, uma pequena demonstração de mu.
Composição das paisagens. Seguindo o que vocês já mapearam como funcionando bem, barco em lagoa, pescadores lançando rede, ondas sem pessoas, montanhas nevadas com pássaros, cachoeira entre montanhas, sugiro reservar essas imagens especificamente para a Porta 4 (Natureza como mestra), e usar composições mais minimalistas, quase abstratas, um único galho, uma única pedra, um único círculo, para as portas mais conceituais como Mu e Silêncio. A imagem deveria ficar progressivamente mais esparsa conforme o livro avança em direção à Porta 8, no mesmo ritmo em que o buscador se aproxima da quietude.
Formato geral de produção. Sugiro manter exatamente o mesmo fluxo de trabalho que já validamos nos outros dois livros: uma página por haicai, o poema sozinho seguido da página de comentário (ou, nos casos sem comentário, apenas uma página em branco com o mínimo de composição visual, reforçando o silêncio em vez de preenchê-lo). A única mudança de produção que sugiro é dar mais tempo, proporcionalmente, às imagens da Porta 4 e da Porta 8, por serem as que mais dependem da imagem para comunicar o que o texto propositalmente não diz.
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