Avaliação final — o que diferencia esta obra
Comparado ao volume comum de "haicai + zen" (que normalmente é uma antologia de poemas curtos seguidos de comentários soltos), este livro tem três traços que não são comuns no gênero:
1. Estrutura narrativa oculta atravessando o livro. Um "buscador" anônimo aparece, sem falar, uma vez em cada porta, cada vez mais perto do mosteiro — e o livro termina com ele saindo de novo para o mercado (referência direta aos Dez Touros). Isso transforma uma coletânea de poemas independentes em algo com arco narrativo, sem que os haicais percam autonomia. É um recurso editorial pouco visto em livros de haicai brasileiros, que costumam apenas agrupar por tema.
2. Rima e sonoridade portuguesa aplicadas à forma japonesa. A maioria dos haicais aqui rima ou quase-rima (ex.: "caminho / pergaminho / peregrino"; "moinho / a girar"), algo estranho ao haicai japonês tradicional (que nunca rima) mas que aproxima a obra da redondilha e da quadra popular brasileira. Isso é uma escolha estética consciente — o livro "abrasileira" a forma, em vez de imitar o modelo japonês com fidelidade métrica (aliás, os poemas não seguem rigorosamente 5-7-5 sílabas; são mais livres). Vale destacar isso ao leitor como identidade própria, não como desvio.
3. Honestidade editorial no prefácio. O autor admite algo raro: que não escreveu os haicais pensando em zen — o zen foi reconhecido depois, e alguns poemas foram propositalmente excluídos por pertencerem a "outro território" (afeto entre pessoas). Isso dá credibilidade à obra: ela não força correspondências, e o próprio autor reconhece os limites da aproximação.
No conjunto, é um livro que usa o zen como lente de leitura sobre uma obra poética já existente, e não como molde para escrever poemas novos — diferença sutil, mas real, frente à maioria dos livros do gênero.
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