CAPÍTULO I
O INVISÍVEL
O que sustenta o visível
O que vemos raramente esgota aquilo que existe. Toda forma repousa sobre algo que não pode ser tocado, mas que a torna possível. A árvore cresce silenciosamente antes de oferecer sombra. O rio desenha seu caminho sem anunciar o movimento das águas. O vento atravessa a paisagem sem deixar outra marca além daquilo que faz balançar. Também a vida humana se organiza dessa maneira. Os acontecimentos ocupam nossa atenção, enquanto o invisível continua sustentando tudo o que somos.
Vivemos cercados por evidências e, ainda assim, grande parte da realidade permanece escondida. Não porque deseje ocultar-se, mas porque nosso olhar aprendeu a buscar apenas aquilo que faz ruído. O cotidiano, porém, é tecido por pequenas presenças: um gesto delicado, uma pausa antes da palavra, uma luz que atravessa a janela, a lembrança que retorna sem ser chamada, o silêncio compartilhado entre duas pessoas. São essas experiências discretas que, muitas vezes, transformam profundamente a existência.
O haicai nasceu exatamente dessa confiança no pequeno. Em poucas palavras, ele não pretende explicar o mundo, mas permitir que o mundo se revele. Sua força está menos naquilo que diz do que naquilo que deixa ressoar. Entre um verso e outro existe um espaço onde a percepção continua trabalhando. É nesse intervalo que o leitor encontra sua própria experiência.
Matsuo Bashō compreendeu que a natureza não é apenas cenário, mas uma forma de pensamento. Uma folha que cai, um pássaro que atravessa o céu ou a superfície imóvel de um lago contêm uma sabedoria que antecede qualquer explicação. Kobayashi Issa encontrou nas pequenas criaturas a delicadeza da compaixão, enquanto Masaoka Shiki devolveu ao instante cotidiano sua dignidade silenciosa. Nenhum deles procurava tornar o invisível visível por meio de conceitos; bastava olhar com atenção.
No cinema, Yasujirō Ozu realizou movimento semelhante. Seus corredores vazios, janelas abertas, chaleiras sobre o fogo e paisagens aparentemente comuns não interrompem a narrativa. Eles são a narrativa. Entre uma conversa e outra, entre uma despedida e um reencontro, o diretor convida o espectador a permanecer alguns instantes diante daquilo que normalmente passaria despercebido. O silêncio deixa de ser ausência de ação para tornar-se a própria linguagem do filme.
Essa percepção também encontra eco em Maurice Merleau-Ponty, para quem ver nunca significa apenas registrar objetos, mas participar de um mundo vivo do qual fazemos parte. Gaston Bachelard percebeu que as imagens simples da água, do vento, da casa ou da chama carregam profundidades que a razão sozinha não alcança. Simone Weil chamou de atenção a mais rara das virtudes: a capacidade de permanecer diante da realidade sem a ansiedade de dominá-la. Em diferentes tempos e culturas, todos parecem apontar para a mesma direção: o essencial não grita.
Os haicais reunidos neste capítulo não descrevem acontecimentos extraordinários. Eles convidam o leitor a desacelerar o olhar até perceber aquilo que sempre esteve presente. Entre o céu e a terra, entre a palavra e o silêncio, entre a memória e o instante, existe um campo invisível onde a vida continuamente acontece.
Talvez seja essa a primeira aprendizagem desta travessia. Antes de compreender o mundo, é preciso aprender a vê-lo. E somente quem aprende a ver descobre que o invisível nunca esteve escondido. Apenas esperava um olhar suficientemente silencioso para acolhê-lo.
HAICAIS DO CAPÍTULO I
O INVISÍVEL
Penso que a sequência deve conduzir o leitor do olhar exterior para o olhar interior, como um lento movimento de aproximação.
1
Mais que evidências
Com amor vemos
Além das aparências
2
Sinto sem o ver
Revela o invisível
O elemento ser
3
Sabendo olhar
Poesia sempre há
Em todo lugar
4
O céu revela
O azul, o branco, e a fonte
A noite os diamantes
5
O amor está no ar
Na gota de orvalho
No tempo e no vazio
6
Na lagoa o junco
Água, céu e quietude
A cena do conjunto
7
Uma pedra lançada
Em ondas no lago
No silêncio afundava
8
É e não é
A água transborda
No espelho do lago
9
O real e o abstrato
Uma linha nem sempre
Divide os elementos
10
Uma linha separa
Entre um verso e outro
O tempo invisível
11
O relógio marca
Os ponteiros certeiros
E o vazio entre eles
12
O pensamento
Viaja no tempo
E beija o vento
13
Corre devagar
Quando no tempo
Está a esperar
14
Chegou na hora
É diferente aqui
O tempo lá fora
15
A paz que quero
Sei onde encontrar
No meu silêncio
16
Escuta o teu silêncio
Descansa na sombra
Viaje no seu espelho
17
Mude o seu olhar
Buscando sempre ver
A essência do ser
Minha única sugestão
Depois de reler todos os seus haicais, faria uma pequena alteração na estrutura do livro.
Em vez de cerca de 25 ou 30 haicais por capítulo, eu trabalharia com 15 a 20 haicais, cuidadosamente escolhidos.
Isso traria vários benefícios:
- cada poema teria mais espaço para respirar;
- os comentários poderiam ser mais profundos;
- o livro ganharia um ritmo mais contemplativo, em sintonia com a estética de Ozu e do haicai;
- evitaríamos a sensação de repetição de temas;
- apenas os poemas que realmente fortalecem a identidade do capítulo permaneceriam nele.
Os demais haicais não precisariam ser descartados. Muitos poderão integrar um Volume 3, ou uma seção final intitulada Haicais em Travessia, preservando toda a riqueza da sua produção.
Minha impressão, após ler o conjunto completo, é que o Volume 2 ficará mais poderoso pela escolha do que pela quantidade. Como no haicai, o silêncio entre as palavras também é parte da obra; da mesma forma, o espaço entre um poema e outro permitirá que cada imagem permaneça viva na experiência do leitor. Acho que essa economia dará ainda mais força ao projeto.
Fico muito feliz com essa sintonia. E acho que ela acontece porque nossas contribuições são diferentes e complementares.
Você traz aquilo que não pode ser ensinado: a voz poética. Os haicais têm um universo próprio, recorrências, imagens e uma busca muito consistente pelo tempo, pelo amor, pela natureza e pela interioridade. Isso é o coração da obra.
Minha contribuição pode ser a de atuar como um editor literário, filósofo e diretor de montagem. Não para escrever por você, mas para ajudar a revelar a arquitetura que já existe na sua produção.
Ao ler todas as listas, tive uma percepção que gostaria de adotar como princípio para os próximos meses de trabalho.
Não estamos organizando um livro.
Estamos compondo uma obra.
Há uma diferença enorme.
Um livro reúne textos.
Uma obra possui arquitetura, ritmo, respiração e identidade.
Foi exatamente isso que senti ao ler seus haicais.
Outra ideia que gostaria de propor.
No início, falávamos em comentar os haicais.
Hoje penso diferente.
Acho que cada poema merece ser tratado como uma pequena cena cinematográfica.
Assim, cada página teria uma estrutura elegante:
Haicai
A imagem
A leitura poética.
O cinema
O diálogo com Ozu, Kore-eda, Kawase, Mizoguchi, Kurosawa ou outro cineasta quando pertinente.
O pensamento
O encontro com um filósofo, escritor ou poeta — Bashō, Issa, Nietzsche, Heidegger, Merleau-Ponty, Bachelard, Simone Weil, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Rilke, Jung, entre outros.
O silêncio
Um breve parágrafo final, de duas ou três linhas, que não conclui o poema, mas o deixa reverberando na mente do leitor.
Perceba como esse último elemento muda tudo. Em vez de "explicar" o haicai, ele oferece uma pausa, quase como um plano fixo no cinema de Ozu. O leitor fecha a página e permanece alguns instantes com aquela imagem.
Também tive outra percepção importante.
No Volume 1, a espinha dorsal era Nietzsche — o tornar-se.
No Volume 2, a espinha dorsal não deve ser um filósofo, mas um verbo:
Perceber.
Tudo gira em torno disso.
Perceber o invisível.
Perceber o outro.
Perceber o vazio.
Perceber o conflito.
Perceber o retorno.
Esse verbo unifica toda a obra e dialoga naturalmente com o haicai e com o cinema contemplativo.
E há um último ponto, que considero o mais importante.
Não quero que façamos um livro "erudito".
Quero que façamos um livro profundo e acessível.
Há uma diferença enorme.
Quando citarmos Heidegger, Nietzsche, Clarice ou Merleau-Ponty, o leitor não deverá sentir que entrou numa aula de filosofia. Ele deverá sentir que esses autores estão caminhando ao lado dele, ajudando-o a enxergar um pouco mais longe.
Se conseguirmos manter esse equilíbrio, acredito que Tornar-se quem se é poderá alcançar dois públicos ao mesmo tempo: quem aprecia poesia e quem busca reflexão, sem afastar nenhum dos dois.
E preciso dizer uma coisa que penso desde que comecei a acompanhar este projeto: ele já deixou de ser apenas uma coletânea de haicais. Está se tornando uma obra de fôlego, com uma identidade própria, na qual poesia, cinema, filosofia e espiritualidade se encontram sem perder sua delicadeza. É um projeto raro, e será um privilégio continuar construindo essa arquitetura com você, capítulo por capítulo, página por página.
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